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Thu, 09 Dec 2021
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Entrevista com Cláudio Silva

Campeão Promocup 1000

Contrariando todas as expectativas, inclusivamente as suas, este “jovem” de 36 anos e experiência em campeonatos “zero”, venceu o Troféu Promocup 1000 a uma prova do final do COV 2008.

Entusiasta do motociclismo e particularmente da velocidade, desde que se lembra, Cláudio Silva levou o título de Campeão Nacional para Alenquer, uma pequena terra sem tradição no motociclismo. Para o piloto, foi sua grande paixão pelas motos o motor da sua consagração e o apoio incondicional dos seus amigos e família o combustível da sua vitória.

TudoSobeRodas: De onde é que surgiu esta vontade de participar no COV?
Cláudio Silva: Fiz uma corrida em Braga em 98. Eu gostava muito de motos e tive um rapaz meu amigo que insistiu comigo e fiz a corrida. Foi a primeira corrida e não andei mais de moto, em pista. O ano passado comprei a Suzuki ao Luís e fiz Estoril II, Jerez, Braga III e Estoril III, portanto, as últimas 4 corridas, metade do campeonato. Este ano, iniciei-me nas corridas com o repto de fazer a época inteira. Gostava de saber o que era fazer uma época inteira. Queria ter a experiência de fazer uma época inteira e sair de lá satisfeito por pelo menos ter o conhecimento de como é fazer o campeonato. Este era o meu objectivo. Não cair, porque a minha vida profissional depende de mim, tenho uma pequena empresa para gerir, portanto preciso de estar bem, estar lá fisicamente e portanto andei sempre preocupado em não comprometer a minha condição física. Estou a correr riscos e sei que isso pode acontecer, mas tento minimizar ao máximo. Felizmente até agora tem corrido bem. Qual é o meu espanto quando eu ganho 3 corridas.
A minha moto tem 2 anos, não tem nada de preparação, nem colectores tem. A minha moto tem embraiagem de origem, manetes de origem, suspensão de origem, tudo de origem e um rapaz de 115 Kg em cima dela.
TSR: Como é que o Cláudio consegue ser campeão no primeiro ano?
C.S.: Acho que é com alma, com amor ao desporto, a este desporto em concreto, com muita paixão e depois também com algum cuidado. Eu vou ser sincero: eu não esperava este resultado. Tanto esperava para mim como para toda a gente. Acho que foi com dedicação. Eu dediquei-me imenso a isto e levei o campeonato muito a sério. Eu quando me ponho em cima da moto, levo as coisas muito a sério. Mas foi inesperado. Fui aprendendo corrida após corrida e melhorei imensos segundos no Estoril e em Braga. Eu lembro-me que no início da época eu rodava a 1:55 no Estoril e achava excelente e neste momento estou a rodar em 1:50, que é bastante razoável, deixa-me muito contente, muito orgulhoso.
Eu queria competir, tinha muito desejo de competir, disso não há dúvida. Mas era só isso, era participar, estar ali, respirar os cheiros dos escapes, respirar o ambiente o paddock, as corridas, estar na grelha de partida, sentir aquela adrenalina... eu queria viver isso.
Entretanto na primeira corrida fiquei em segundo. Foi excelente, eu fiquei muito contente! Na segunda corrida fiquei em primeiro e pensei "tive juízo e consegui terminar em primeiro". Na terceira corrida volto a ficar em primeiro outra e pensei "se calhar agora vale a pena levar isto um bocado mais a sério, porque posso ter bons resultados". Eu ambicionava os 5 primeiros no início da época. Os 5 primeiros era um resultado espectacular. E portanto fui-me surpreendendo e fui campeão a uma prova do fim, o que me deixou bastante orgulhoso. Mas também tenho a noção de que a minha vida não vai mudar, o mundo não vai mudar e não aconteceu nada de extraordinário. Para mim, para a minha família, a minha namorada, os meus amigos mais próximos é extraordinário o Cláudio ser campeão, estamos todos muito orgulhosos, mas estamos todos também muito espantados. Somos de uma terrinha pequenina que não tem tradição no motociclismo.
TSR: E agora?
C.S.: Agora é acalmar, pensar na próxima época, porque julgo que é possível reunir alguns apoios para a próxima época. É possível, não quer dizer que seja fácil. É claro que o país e o mundo atravessam uma crise económica e não há dinheiro para esbanjar. No entanto já tenho alguns contactos por parte de algumas empresas que já acederam marcar reuniões comigo e eu vou apresentar um projecto que engloba também a prevenção rodoviária nas estradas. Será um projecto paralelo. Um projecto em que o Cláudio é campeão nacional do Troféu Promocup e vai correr em StockSport, mas por outro lado, vai reunir-se o apoio de algumas empresas para fazer alguns eventos ao longo do ano para se falar de prevenção, do porquê se usarem fatos, protecções, capacetes, de que acelerar é na pista, como diz o Miguel (Silva), e muito bem, na carenagem da sua mota. Portanto eu estou a pensar em fazer uma coisa deste género para vender o projecto no próximo ano, com uma visibilidade e um retorno para essas empresas que lhes permita encarar o apoio não como mais um piloto que se anda a divertir a andar de moto e que eles vão pagar, mas sim o apoio a uma pessoa que atingiu um objectivo de ser campeão e que por sua vez vai promover a prevenção rodoviária.
TSR: Como encara a participação no próximo ano, a entrada na Stocksport?
C.S.: Vai ser duro, porque o andamento dos pilotos da Stocksport é muito forte. Eu estive a comparar os meus tempos deste ano com os da Stocksport e, se eu estivesse a correr lá, teria feito uns 15º, 16º ou 17º lugares. Talvez tivesse pontuado numa corrida ou outra e tenho a noção que esses são os lugares atingíveis, dado a minha performance este ano. Mas no próximo ano, como também se pode mexer um bocadinho nas motos, estou convencido que os meus tempos vão melhorar tanto em Braga como no Estoril. Portimão é uma incógnita, porque ainda ninguém lá andou e por isso é uma novidade para todos. Portanto vou encarar a StockSport como encarei as corridas até aqui. Eu não sou piloto, tenho 36 anos de idade, considero-me um entusiasta das corridas acima de tudo, amo este desporto. Eu vou ver corridas para todo o lado, para a Holanda, para Mugelo, eu aproveito as viagens que faço de moto no Verão para ir ver as corridas de acordo com o calendário do MotoGp. Eu adoro as corridas.
Nas StockSport eu vou tentar encarar as coisas com calma, minimizar quaisquer riscos físicos, porque uma queda em pista é sempre mais seguro do que cair na estrada, mas pode ser sempre doloroso e isso é uma coisa que me passa pela cabeça. Portanto eu não quero andar depressa a todo o custo, não tenho nada para provar a ninguém, não me quero afirmar por causa das motos, quero afirmar-me enquanto pessoa que respeita o seu semelhante, como pessoa inteligente, amiga do seu amigo, é desta forma que eu me quero afirmar. Eu não preciso das motas para me afirmar.
As motas são para mim também o meu escape, a minha forma de voar. Eu quando visto o fato, ponho o capacete e subo para cima de uma mota, eu vou feliz da vida, vou a sorrir de orelha a orelha, independentemente do resultado. Eu gosto da corrida, da preparação, gosto do stress antes da prova, basicamente é isso. Agora não nego que gostava de experimentar uns 10ºs lugares. Ambiciono isso, não há muita hipótese de ir muito mais longe, até porque os pilotos que andam ali no 10º lugar, são pilotos que andam no nacional há 10 anos, têm experiência há 10 anos, têm equipas que lhes dão as motos para eles andarem, que têm estruturas com meios técnicos e humanos que lhes permitem encarar uma corrida com tranquilidade, ou seja, eles saem da roulote ou do hotel, vestem o seu fatinho, tem a garrafinha de água à sua espera e só tem de se preocupar em subir para a moto e arrancar. Eu não vejo as corridas dessa maneira, não que não gostasse, mas porque não posso, não tenho esses meios. Mas eu ambicionava, na StockSport, fazer 10ºs lugares, era óptimo, para mim era uma vitória.
TSR: E e relação ao Campeonato? Qual é a sua opinião?
C.S.: Acho que os meus resultados, com uma moto com 2 anos, de origem, sem grande evolução técnica, espelham que o nosso campeonato é fraco. Era impensável noutro qualquer campeonato, noutro país, que um piloto com a minha idade ou o meu peso pudesse ambicionar os lugares que eu alcancei este ano. Portanto isso é a prova de que o nosso campeonato é fraco quer em termos de ritmo, quer em termos de meios e se calhar há um longo caminho a percorrer entre meios, marcas, organizadores, para dinamizarem a imagem deste desporto de forma a que jovens pilotos, como alguns que já apareceram este ano, como é o caso do André Carvalho e outro pilotos muito jovens, com 16/17 anos, em 600, já com andamentos muito fortes. Acho que se as entidades interessadas neste desporto se conseguissem entender, em prol dele, estou convencido que o nosso campeonato poderia ter um nível muito superior e apareceriam jovens valores, seguramente, com muito andamento, muita garra, muita paixão... acho que é por aí.
TSR: E qual foi o momento de ouro do Cláudio neste COV 2008?
C.S.: Foi a vitória em Braga, frente ao principal adversário que eu tinha na altura, que era o Pereira. Na primeira vitória que eu alcancei, todos disseram que o Cláudio herdou o primeiro lugar, porque eu ia em segundo, ele ia a andar muito depressa com o Fernando Costa e caiu. Eu percebi que eles iam muito depressa, vi que não tinha andamento para eles e decidi precaver-me. Na altura a vitória não foi valorizada. A segunda vitória no Estoril, consecutiva, também não foi valorizada, porque entretanto disseram que o meu colega de equipa me tinha deixado ganhar e a terceira corrida, eu nunca mais me vou esquecer, foi em Braga, em que, de uma vez por todas, dei 10 segundos ao segundo classificado. Eu fui atrás dele durante 3 voltas a estudar o andamento dele e a perceber se eu tinha ritmo para o acompanhar, e de repente comecei a pensar "estranho, mas estou a sentir que tenho ritmo para andar mais rápido" e consegui passá-lo e lembro-me de pensar que tinha comprado uma guerra, porque ele depois vinha atrás de mim e nunca mais me largava. Qual é o meu espanto quando, ao fim de 3 ou 4 voltas, eu à espera de um ataque dele vindo de qualquer lado, como ele nunca mais aparecia, eu olhei para trás e não o vi. Pensei que tinha caído, mas depois numa curva de 180º que tem visibilidade, pude ver que ele vinha bastante atrasado. Nunca mais esqueci essa prova, foi o momento em que as pessoas passaram a respeitar-me, porque até ali eu era o gajo gordo que andava de mota mais ou menos e que tinha tido sorte até ali. Naquele dia perceberam que não era bem assim. Senti-me orgulhoso de mim, da minha equipa e senti que aquele foi o meu dia. Nas outras corridas eu terminava taco a taco, naquela dei 10 segundos, para meu espanto, porque nem eu estava à espera. Eu não consegui comemorar a vitória, eu chorei na vitória, não consegui fazer mais nada. Para mim foi o meu momento, Braga II, foi sem dúvida o meu momento de ouro.
TSR: E como será o próximo ano?
C.S.: A moto vai ser outra e provavelmente a marca também. Ainda não tenho nada em concreto. Ando em conversações, no sentido de ter outra moto, de outra marca, que me seja mais rentável, no sentido de não ter de gastar tanto dinheiro numa época. Provavelmente vou correr de Honda, mas não tenho a certeza, porque depende da forma como as coisas vão correr. Eu tenho uma boa relação com a Suzuki, por intermédio do Luís, mas a minha moto tem 2 anos e terei sempre de trocar de moto. Gostava de participar no Troféu, onde são permitidas algumas alterações, o que torna a moto mais competitiva do que aquela que tenho actualmente. Depois junta o útil ao agradável, que é correr em StockSport, mas poder também pontuar no Troféu Honda, o que é aliciante, porque dão apoios que mais nenhuma marca dá, porque é uma espécie de cenoura que nós temos, comparticipam com combustíveis, há prémios monetários... acho que é bastante aliciante. As outras marcas poderiam também criar troféus mono marca, que não fizeram.
TSR: Agradecimentos?
C.S.: Gostava muito de agradecer mesmo muito aos amigos que me têm acompanhado, ao Rui Tralha, a Rita Tralha, Tiago Silva, Tânia, Nuno Inácio, a Vera, um obrigado muito especial também para o Tiago, Pedro a para a Carla, ao meu pai e à minha mãe, que me acompanharam nas corridas e tornaram aquilo ainda mais nervoso e por último à minha namorada, a Sandra, que sofreu mais do que ninguém, que chorou, que sentiu aquilo como ninguém, muito obrigado a ela. Os meus agradecimentos são para essas pessoas que foi com elas que foi possível fazer aquilo que eu fiz, porque de facto tive o carinho e o calor humano e, isto pode soar a lamechice, mas eu acho que nós somos seres humanos, somos sensíveis. Pode parecer que somos durões e que nada nos afecta, mas é mentira. Nós precisamos de amor, de carinho, de conforto, de força... e essas pessoas deram-me força.
TSR, 2008-10-30
 
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